Um conto… nada real

11 03 2009

Inicio minhas atividades neste blog com um conto de autoria de um autor renomado na área de testes no Brasil: Leonardo Molinari.
Emprestei o seu último livro pro meu estagiário, e ele me veio com este conto, trocando os nomes dos personagens. Qualquer semelhança com nomes e acontecimentos, É SIM, mera coincidência. A coincidência maior foi eu ter assistido o filme Tropa de Elite no final de semana passado. Tomei a liberdade de fazer umas adaptações pra tornar o texto mais parecido com o filme que deu base ao conto.
O que tem haver com testes afinal? Bom, esta é a maneira incorreta de tratar qualquer pessoa da sua equipe, seja ela seu testador ou o desenvolvedor. E eu sou muito agradecida por não trabalhar num ambiente assim. Ao contrário: aqui testadores e analistas fazem parte da mesma equipe, e trabalham em conjunto para um objetivo maior: entregarmos um software com qualidade de acordo com os requisitos do nosso cliente.
Deliciem-se com a paródia, e sejam bem-vindos a nova casa!

Conto tecnológico: Tropa de Testadores de Elite

Há muito tempo, numa empresa muito, muito distante… Existia um grupo diferente de testadores que passavam intermináveis horas descobrindo bugs.
– Seu incompetente! Burro! Estúpido! Se você descobriu uma falha no programa de faturamento, mostra o bug na cara deles. Quero ver os desenvolvedores encararem mais essa! Nunca serão!!!
– Mas chefe…
– “Chefe” é o Cacilda!! Eu sou a analista aqui @#%¨$#@! Testador burro! Sou analista Fernanda e quem manda nessa porra aqui sou eu.
– Sim chefe! Digo, sim senhora! Sim, analista Fernanda!

Ao falar e ainda tremendo, o jovem testador Márcio levantou-se e fez um leve sinal de reverência. A sanguinária Analista Fernanda fez um sinal de aprovação.
– Testador Márcio, o senhor está vendo o que está escrito na porta?
– Sim, senhora! Sim, analista Fernanda!
– E o que está escrito ali?
– BATE!

Neste momento, antes que o indefeso testador pudesse se defender, a analista levantou-se e deu-lhe um tapa na cara, daqueles de impor respeito até em mulher de malandro. Abalado, o testador não sabia o que fazer, além de sentir seu rosto formigar. Nesse momento o relógio marcava 18:00 em ponto.
– Burro! Pronuncia-se assim: Batalhão de Testadores Especiais, o “BATE”. Aprendeu idiota?
– Sim, senhora! Sim, analista Fernanda! (o medo da demissão era maior do que a revolta pelo tapa na cara, pois Márcio era novo e tinha casado há pouco mais de 15 dias.)
– Mostre-me o relatório de erros que você aprontou – disse a analista Fernanda com sangue nos olhos.
– Sim, senhora! Sim, analista Fernanda! Aqui está!

Nesse momento o franzino testador não conseguia parar de tremer. Fernanda analisou o relatório sem piscar, sua face demonstrava ira. Foi ai que o testador ficou confuso com uma cena bizarra que os seus olhos deslumbravam. Nesse momento a analista estava sorrindo. A analista ainda sorrindo pergunta:
– Quem fez esse programa?
Esperando ser castigado o testador responde:
– Foi… foi o Luiz – um programador novo que se aventurava o pouco na empresa.

– Acompanha-me até a sala de programação onde os desenvolvedores se amontoam – falou em voz alta a analista Fernanda.
– Sim, senhora! Sim, analista Fernanda!

Em pouco tempo estavam face a face com o desenvolvedor Luiz. Este que não sabia que seu fim poderia estar muito perto.

– Luiz, olhe para mim – disse Fernanda – Foi você que fez essa P@#$#*? – Falou apontando para o relatório onde estava o nome do programa com o bug.

– Você Luiz, você não é um programador. Você é um moleque. Você é um fanfarrão! – Finalizando a frase com um belo tapa na cara.

– Sim senhora, lá no Acre é comum ficar o dia todo na floresta tirando leite do pau e desenvolvendo assim. Mas qual é? Qual o pepino?

Nesse momento incrivelmente não se escuta nenhum passarinho cantando e com a rapidez de uma lebre a analista pegou o programador pelo colarinho, deu-lhe três tapas na cara o imobilizando. Seus olhos enchem de lágrimas, sua boca fica seca, ele até tenta reagir, mas o medo o deixa paralisado a beira dos portões do inferno e de cara a cara com o próprio diabo. Ele tentou reagir, mas Fernanda o pegou pelo pulso de forma que nada pudesse fazer. Ele chegou a contorcer de dor.
– Onde está o bug seu filho da #$%@#*&¨? Fala desgraçado!
Fernanda era violência pura. Nada a detinha.
– Não sei, não sei… ai ai ai ai… Eu não sei, eu juro!! Dizia Luiz.
– Você sabe sim, seu canalha! Diga-me ou você vai apanhar mais… Márcio, trás o saco! Trás o cabo de vassoura!!!

Em poucos segundos, como passe de mágica, o programador quase sem forças informa onde está o bug.
– Tá bom eu sei… Me larga, mas não bate na cara, na cara não! Por favor, na cara não…

A analista agora agarrada nos cabelos do pobre coitado fala:
– Tá vendo esse relatório de bugs? Vocês é que financiam essa merda, é por causa de programadores que nem você que a empresa perde dinheiro.

Fernanda ainda com as mãos nos cabelos do acreano, puxa sua cabeça em sentido ao seu joelho e mancha sua calça holandesa com sangue mortal.
– Isso é para você aprender a fazer um programa decente. Desgraçado… Você tem meia hora pra colocar o código novo consertado em produção, ou então: Pede pra sair! Pede pra sair!

Não se precisa dizer mais nada. No dia seguinte estava tudo 100%.

O fato é que o analista estava treinando vários testadores novos para atuarem no BATE. Eles eram uma tropa de testadores de elite que merecia respeito. O quente não eram seus métodos de descobrir bugs. O quente eram seus métodos de resolução de bugs. A analista estava velha e ia se aposentar em 3 meses. Precisava achar alguém que ficasse em seu lugar. Ela viu em Márcio um forte candidato, pois se parecia com ela há alguns anos atrás.

O treinamento era exaustivo. Fernanda indicava o livro de testes ou qualidade que deveria ser lido de um dia para o outro, e cuja série de perguntas (ou problemas) iriam ser respondidas no dia seguinte. Era na realidade um teste por dia. Quem não lia não tinha chance alguma: ou era demitido sumariamente e se não passasse no teste era também demitido. Cerca de 50% da turma foi eliminada de cara. Eram livros em inglês, em espanhol e em português. Cada um com 300 páginas ou mais. Pauleira diária. Eles sempre gritavam todos juntos ao final de cada dia, tal como um hino:

– Bug bom é bug morto! Desenvolvedor bom é desenvolvedor sem bug!

Sempre uma vez por semana eles faziam testes reais e tinham de descobrir bugs. Eles foram devido a pressão se tornando opressores dos bugs. Uma fúria indomável surgia dentro de cada um quando descobriam um bug. Alguém tinha de pagar por aquilo.

O problema é Márcio se tornou uma cópia da analista Fernanda. Márcio se tornou mais que a Fernanda era: era tão violento e medonho quanto Fernanda, porém era mais sórdido. Começou a manipular os colegas e quem não era testador em sua visão era em pouco tempo demitido.

Márcio passou a querer mais e mais. “Fernanda tinha de ser eliminada” pensou ele.

Quinze dias da aposentadoria, Márcio mostrou um vídeo gravado por uma câmera de bolso para o diretor da empresa, ao mesmo tempo em que ele tinha descoberto vários podres do diretor. Não restava dúvida: Analista Fernanda foi demitida por justa causa. Márcio ficou em seu lugar.

Algum tempo depois quando um novo testador iniciou na empresa, Márcio se apresentou:
– Aqui meu filho é o BATE: Batalhão de testadores especiais. Aqui nesta sala quem manda é eu. Se você não entendeu é BURRO. Aqui é uma cova de leões. Matamos um leão por dia aqui. Aqui não há testadores, o que existe são sobreviventes. Boa Sorte. Eu sou o Testador Márcio. Escutou?

Caro Leitor, vejamos a não-qualidade apresentada:
1- trate todos com respeito;
2- desenvolvedor não é criminoso. Aparecer um bug não é ato de delito;
3- não adianta empurrar conhecimento goela abaixo. Ninguém é máquina. Cada um tem um modo de assimilação;
4- melhorar a qualidade de um código é muito mais que testar;
5- sempre existirá pressão no trabalho, mas alguns profissionais exageram e passa a ser uma pressão psicológica terrível. Tudo é um equilíbrio.

Texto original:
MOLINARI, Leornardo. Testes Funcionais de Software. Florianópolis: Visual Books, 2008. p166-169

Também em:
http://diariodaqualidade.blogspot.com/2007/10/contos-tecnolgicos-de-qualidade-08.html

Edição: testador Márcio e Robson B.


Ações

Information

7 responses

12 03 2009
infinitomaizum

Fernanda,
Parabens pela iniciativa de criar um Blog temático sobre a “Arte de Testar”.
Esqueceu de comentar que a parte mais engraçada do texo teve dedo meu. heheheh. Nunca serão.
Desenho sorte nesse novo desafio.
Beijus b

12 03 2009
Felipe

Parabens Fernanda,
ficou muito bom este post.
Só faltou citar os outros testadores. ;P
ahahaha
Sucesso com o novo blog!

12 03 2009
Alexandre

Bacana Fernanda, pena que ficou muito extenso e eu tenho que terminar uma atividade, senão os testadores de plantão vão me pegar…😀

Abs,
Alexandre.

12 03 2009
Márcio

Blog dos testers!! Ficou bom! Vamos sempre atualiza-lo com textos referentes a testes, assim nos “obriga” a pesquisar e elaborar textos, assim profundar mais nossos conhecimentos.
Valeu Fernanda!

12 03 2009
Luiz F.

Muito bom! Só que eu sobre no texto :D! Mas é isso aí, continue com esses contos e com o blog. Creio que o texto resume bem anti-padrões que podem acabar acontecendo no dia-a-dia. Continue assim!

Abraços,
Luiz

12 03 2009
Nelson Abu

Eu gosto muito da frase:”Como nós iremos testar isso?”, que deve ser utilizada juntamente com a frase: “Como nós vamos construir isso”.

Lembrando o manifesto: Indivíduos e interação entre eles mais que processos e ferramentas

Parabéns Fernanda.

Abu

27 03 2009
Robson

[grilos]…

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